Aumento da classe média no mundo vai puxar exportações de carnes brasileiras em 2016

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Com a disparada da inflação em 2015, não foi apenas o preço da energia que subiu, mas do tomate, do feijão, do alho, da cebola também. E, para 2016, o receio de boa parte dos brasileiros é que a comida pese ainda mais no orçamento familiar. Em entrevista ao Fato Online, a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, reconhece que o custo da alimentação subiu acima da inflação em 2015 (acumulando alta de 10,35% até novembro), mas acredita que isso não deve se repetir no ano que vem. “Em nível internacional, as commodities estão estabilizando. No Brasil, não vejo que, no ano que vem, a comida possa estar com preço tão elevado”, afirmou. Segundo ela, o setor agrícola deverá garantir um ritmo de crescimento entre 1,5% a 2%, apesar das previsões de recessão para economia brasileira e o essencial para isso será o incremento nas exportações, especialmente de carne. A demanda nesse caso, argumenta, será impulsionada pelo aumento no número de pessoas na classe média mundial. A expansão da classe média, para a ministra, significa mais consumo de carnes, que deve ser o produto de destaque da balança comercial em 2016. Katia Abreu destacou que apenas na Ásia a expectativa é que o consumo de proteína animal cresça quatro quilos no ano. Ela enfatizou ainda que o brasileiro não deve se preocupar porque não faltará produto no país e defendeu que, em vez de se preocupar em bater recordes de safra, o país precisa pensar em como agregar valor aos produtos, para elevar o faturamento dos produtores. “Acho que podemos nos preocupar nesse momento em transformar soja em farelo, soja em ração, milho em ração. Transformar proteína vegetal, proteína animal”, afirmou. Confira a seguir os principais trechos da entrevista, concedida no gabinete da ministra, em Brasília, e as dicas para se proteger da alta de preços. 

Fato Online –  A crise vai chegar na agricultura?
Kátia Abreu – A crise atrapalha todo mundo. Não é boa para setor econômico nenhum. Quem trabalha, coloca seu patrimônio em risco, investe, quer tranquilidade. Crise nenhuma é boa. Quanto mais rápido resolver, é melhor.

Fato – O que vai puxar a agricultura em 2016?
Kátia Abreu –  Continuaremos sendo grandes exportadores de carnes. Os grãos também, por onde ando, há expectativa. Na Índica, nos países árabes, africa subsaariana, todo mundo quer grãos do Brasil e com muito crescimento de classe média. Na Índia, estão crescendo a 7% , 8%,uma população de 1,2 bilhão de pessoas onde só 23% tem geladeira. A exportação é um dos pilares que vai ajudar o país.

Fato – O Brasil abriu mercados e, agora, a Argentina voltou para o jogo com o novo presidente eleito para tentar retomar o mercado. Isso vai atrapalhar expansão do Brasil?
Kátia Abreu –  Acho que todos têm capacidade para crescer. Se sou dono de uma fazenda e vejo meus vizinhos empobrecidos e em decadência, tenho que ficar preocupado. Se toda minha vizinhança está bem, isso é um bom sinal. Um Mercosul derrotado não nos serve para nada. Um presidente da República com uma nova política de liberalismo, de fortalecimento dos mercados, tenho que aplaudir e torcer para que a Argentina se recupere. Eu quero um vizinho é rico. Não quero vizinho em decadência.

Fato – Mas na crise, a concorrência não piora a situação?
Kátia Abreu – Somos mais competitivos. É difícil superar a competitividade do Brasil. Não temos nenhuma preocupação. No mercado internacional tem quem ganha e quem perde. Às vezes, uma seca num país é alegria do outro que vai vender mais. O mercado é muito dinâmico. Argentina não tem condições de afetar as nossas exportações de forma significativa. Pode tirar umas coisinha daqui ou dali, mas nada que afete. Aonde eles forem, nós vamos juntos. Eles não tem nenhum mercado que nós não tenhamos.

Fato – Tem espaço para todos?
Katia Abreu – Na Ásia, estudo da FAO/OCDE diz que haverá um crescimento de 4kg por habitante/ano no consumo de carne nos países asiáticos. Vai sair de 48 kg por habitantes por ano para 52 kg. O que isso significa? Ao ano, são 4,4 milhões de toneladas [de carne]. Em dez anos, serão 45 milhões de toneladas. O Brasil produz 26 milhões de toneladas. Então, em dez anos eles vão precisar aumentar o consumo duas vezes a produção brasileira. Isso porque eles estão com crescimento da classe média. Quanto mais cresce a classe média, mais come.

Fato –  Mas e o preço? Com alta da inflação, caiu o consumo de carne. O preço não inviabiliza uma parcela de consumidores?
Kátia Abreu –  Uns deixam de comer e optam por outra proteína, vai substituindo. É difícil de dizer. Depende de cada família. Levantamos aqui a inflação de alimentos em vários países em desenvolvimento. Separamos o índice geral de preços do país e o só de alimentos. Na China, subiu [o preço dos alimentos]  50% a mais do que os outros produtos , na Indonésia, 13%, no México, 37%, na Rússia, 20%, na Turquia, 33%, na África do Sul, 19%, na Índia, 12%, no Brasil, 10%. O que isso retrata? Inflação é negativa. Todo mundo tem ódio. Mas isso mostra que as pessoas estão comendo mais. O nível e a escalada de renda estão ampliando e esses países não conseguem ofertar alimentos de acordo com a demanda. Quem tem a oferta? Nós somos ofertantes.

Fato –  Mas a alta no Brasil se dá em cima de uma inflação mais elevada. Preço não é fator limitante para o consumo interno?
Katia Abreu – Pode ser que sim.

Fato – O excesso de chuva no sul do país não prejudicar a produção de arroz e feijão? Não vai faltar?
Kátia Abreu – Não falta. Se tiver algum risco de faltar vamos comprar. Aqui é o ministério da agricultura, pecuária e do abastecimento. Temos um controle sistemático de produção. Não há a possibilidade, em hipótese alguma de faltar comida no Brasil. Isso [os problemas climáticos] afeta localmente um grupo de produtores e até aumenta o preço do produto para esses produtores. Agora, se faltar o produto vamos buscar aonde tiver.

Fato – Isso não vai aumentar o preço e complicar o custo da cesta básica?
Kátia Abreu –  Não acredito que isso vá acontecer. Teremos produção.

Fato – Em 2016, o IBGE prevê queda na safra. Isso será um problema?
Kátia Abreu – Já tivemos anos em que a gente ficava torcendo, apertando os dedos para fazer super safras. Não sei até que ponto temos que torcer pelas super safras ou pela agregação de valor. Acho que isso não deve angustiar o Brasil: ter que aumentar, aumentar sempre. Acho que podemos nos preocupar nesse momento em transformar soja em farelo, soja em ração, milho em ração. Transformar proteína vegetal, proteína animal. Estamos, agora, em uma condição bastante razoável de começar a discutir disso.

Fato –  A grande preocupação do brasileiro em 2015 foi a inflação, especialmente dos alimentos. Qual o recado que a senhora tem para o consumidor que está assustado com o preço da comida que sobre todo dia?
Kátia Abreu – Em nível internacional, as commodities estão estabilizando. Os preços não estão mais em queda, estabilizaram. No Brasil, não vejo que, no ano que vem, a comida possa estar com preço tão elevado. Acredito que as empresas estão investindo mais e produzindo mais. A produção de carne vermelha está crescendo mais que o consumo interno. A Abiec [Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne] discutiu isso comigo hoje. Perguntei como está o consumo? Eles falaram que o consumo está estabilizado e a produção aumentando mais. Assim como o leite.

Fato – O risco do câmbio é uma preocupação do ministério?
Kátia Abreu – É mercado. Câmbio flutua, vai e volta. O ministério não pode ser analista de fatos de mercado. O que podemos é colocar em prática o preço mínimo na hora que o preço cair. Temos o seguro agrícola, que estamos trabalhando para aumentar para R$ 1 bilhão no ano que vem, já chegamos a R$ 850, falta o Congresso aprovar. Esses são os mecanismos. Agora, o dólar? Só se controlar o dólar. Isso é o pior antídoto que alguém pode fazer.

Fato – Mas qual o seu recado para quem vai ao mercado em 2016 com medo de reajustes de preços?
Kátia Abreu – Precisamos aprender a comprar de acordo com a época da produção. Todo ano vemos as manchetes dos jornais com o preço do tomate [em alta] sempre no mesmo período, parece que é a primeira vez que o preço do tomate subiu. Precisamos entender que tem um período de muita chuva, que o tomate odeia, diminui a produtividade e o preço vai lá para cima. Para que eu vou comer tomate? Eu não como lá em casa naquela época.

Fonte: fatoonline

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