Notícias: Goiás tem recorde de notificações de casos de dengue em 2015, diz SES

0
43

Foram mais de 182 mil registros, 91 mil casos confirmados e 76 mortes.
Combate ao Aedes aegypti é a principal solução destacada por autoridades.

O ano de 2015 já é o recordista de notificações de casos de dengue em Goiás. A Secretaria Estadual de Saúde (SES) passou a centralizar os dados coletados com os municípios em 2010, quando foram 115.070 registros e ocorreram 91 mortes. Neste ano, até a 47ª semana, já são 182.537 ocorrências, sendo 91.489 casos confirmados e 76 mortes.

O recorde anterior havia sido registrado em 2013, quando foram notificados 163.804 casos, sendo 91.684 confirmados, e ocorreram 95 mortes.

O secretário Estadual de Saúde, Leonardo Vilela, diz estar preocupado com a situação. “Ainda estamos no período chuvoso, mas com incidência moderada dos casos de dengue, sendo 200 a 300 por semana, o que não é considerado um período de pico, quando chegam a ser registrados mais de 10 mil. No entanto, a partir de janeiro teremos um novo salto, pois os focos do Aedes aegypti continuam a ser encontrados”, alertou.

Segundo o último boletim divulgado pela SES, na última quinta-feira (3), as três cidades com o maior número de incidência da dengue neste ano são Goiânia, com 77.862 casos, Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana, com 15.937 notificações e Anápolis, a 55 km da capital, com 10.716.

Das 76 mortes, 31 ocorreram em Goiânia, cinco em Aparecida de Goiânia, quatro emJataí, seguidos de Anápolis, Goiatuba eMineiros, com três casos cada, e de Ceres,Crixás, Morrinhos e Novo Gama, com duas ocorrências cada.

As cidades com o registro de uma morte cada foram: Abadiânia, Brazabantes, Britânia, Campinorte, Campo Limpo de Goiás, Carmo do Rio Verde, Goianésia, Goianira, Inhumas, Iporá, Itapaci, Itumbiara, Morro Agudo de Goiás, Rialma, Rio Verde, Rubiataba, Trindade, Uruaçu e Valparaíso de Goiás.

Em relação ao país, Goiás é o estado que registrou a maior incidência de casos de dengue a cada 100 mil habitantes, segundo balanço divulgado pelo Ministério da Saúde até o dia 14 de novembro. Foram 2.314 registros. Em seguida aparece o estado de São Paulo, com taxa de 1.615 casos e Pernambuco, com 901.

Focos do mosquito
Segundo Vilela, estudos apontam que 80% dos focos do mosquito encontrados em Goiás estão dentro das casas. Ele pede ajuda dos moradores para reverter essa situação.

“Os focos estão em entulhos, calhas, vasos de plantas, pneus armazenados inadequadamente, depósitos de água, caixas d’água destampadas. Então também cabe à população fazer esse controle e ao Estado se atentar aos demais 20%, que estão em ruas, parques, entre outras áreas públicas”, destacou.

Quem já sofreu com a doença diz que mudou a postura em relação ao combate ao mosquito, como o feirante Amauri Assunção Cortez, de 52 anos, que mora no Setor Pedro Ludovico, em Goiânia.

“Tive dengue no começo deste ano e sofri demais, pois pensei que era muitas coisas até ter o diagnóstico. Não conseguia comer, sentia muita dor no corpo e minha pele ficou toda empolada. Fiquei tão mal, que passei dois dias internado. Aí, quando consegui me recuperar, fiquei traumatizado e não sossego enquanto não matar qualquer mosquito que se aproxime de mim. Enchi minha casa de telas e faço uma revisão constante na minha casa para evitar os focos”, relatou ao G1.

Amauri Assunção Cortez, de 52 anos, diz que ficou 'traumatizado' após ter dengue, em Goiás (Foto: Fernanda Borges/G1)

Amauri diz que ficou ‘traumatizado’ após ter dengue, em Goiás

Mudança de postura também teve a dona de casa Célia Moreira, 48 anos, que mora no Setor Bela Vista. Ela teve dengue há dois anos, mas considera que “foi fraca”. O susto maior veio no fim do ano passado, quando o marido dela teve dengue hemorrágica.

“Ele quase morreu, mas felizmente melhorou após ficar internado. Mas aí depois foi a vez da minha filha, de 13 anos, ter dengue e aí a ficha caiu de que não adianta a gente culpar só o governo, pois nesse caso, é a própria população quem tem que se mexer. O mosquito gerado na minha casa pode picar e até matar meu vizinho e vice-versa”, ressaltou.

O secretário Leonardo Vilela ressaltou que as ações de combate ao mosquito seguem intensificadas no estado e que serão repassados aos municípios, nos próximos dias, cerca de R$ 800 mil para que os hemogramas, que atestam as doenças, possam ser intensificados. “Além disso, estamos comprando 350 bolsas costais, que serão enviadas às cidades nos próximos dias”, afirmou.

Goiânia
Na capital, os dados da dengue em 2015 também já são os maiores da história desde 1994, quando os dados passaram a ser compilados pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS). De acordo com um boletim, divulgado na última quarta-feira (2), já foram registrados neste ano 77.862 casos e 31 óbitos.

Precisamos travar uma verdadeira guerra contra o Aedes aegypti para mudar essa realidade”

Flúvia Amorim, coordenadora de vigilância epidemiológica de Goiãnia

Segundo a coordenadora da vigilância epidemiológica da SMS, Flúvia Amorim, o recorde anterior também ocorreu no ano de 2013, quando foram 58.024 casos de dengue e 23 mortes.

“É uma situação muito preocupante, pois, apesar dos esforços, os focos do mosquito continuam a ser encontrados e isso reflete no número de registros da doença. Precisamos travar uma verdadeira guerra contra o Aedes aegypti para mudar essa realidade”, disse em entrevista ao G1.

Segundo ela, após a realização do Levantamento de Índice de Infestação do Aedes (Lira) foram identificados os bairros com maior incidência de focos na capital e os trabalhos de combate firam intensificados.

“No Lira descobrimos que os bairros do distrito Leste, que são a Vila Maricá, Jardim Califórnia, Parque Amendoeiras, Santo Hilário e Conjunto Caiçara, são os que apresentam maior infestação do mosquito, então a força-tarefa, que também tem apoio da Seinfra [Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos] e Comurg [Companhia de Urbanização de Goiânia], foi reforçada lá. Mas em breve esse trabalho vai se estender aos demais bairros”, destacou.

Flúvia também reforçou o pedido de ajuda da população e alertou que casos em que o morador não siga as orientações dos agentes de saúde poderão ser multados. “Inicialmente é feita uma notificação, mas se a pessoa continuar sem tomar os devidos cuidados, ela pode ser multada, de acordo com a gravidade da situação. O valor mínimo é de R$ 800”, relatou.

Microcefalia e zika vírus
Além da dengue, o Aedes aegypti também pode transmitir a febre amarela, chikungunya e o zica vírus, suspeito de ligação com casos de microcefalia. Nas últimas duas semanas, sete casos de má formação foram registrados em Goiás, sendo que cinco deles são investigados por elo com o zika: dois em Goiânia, um em Rio Verde, um em Montividiu e outro em Pirenópolis.

Mãe de bebê que tem microcefalia duiz que teve sintomas do zika vírus durante a gravidez, em Goiás (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

Entre casos de microcefalia suspeitos de elo com zika está o do bebe de Rio Verde

A microcefalia é uma condição rara em que o bebê nasce com o crânio do tamanho menor do que o normal. Bebês que nascem com essa má formação podem ter complicações no desenvolvimento da fala, motora e até quadros de convulsão.

Até esta quinta-feira (3) o MS considerava que a má formação existia em bebês com crânios de perímetro igual ou menor a 33 centímetros. No entanto, a partir desta sexta-feira (4), o órgão mudou o critério e classifica com microcefalia crianças que têm cabeças medindo 32 cm ou menos de circunferência.

O secretário Estadual de Saúde, Leonardo Vilela, ressaltou que essa suspeita de ligação ainda é investigada e que os números devem aumentar nos próximos dias. “A medida que a nós [Secretaria Estadual] passamos a exigir a notificação, os médicos passaram a seguir o protocolo, aí é natural que os números cresçam. Mas aí cabe a equipe epidemiológica a investigar e fazer o diagnóstico diferenciado”, disse.

Como ainda não existem exames que possam atestar se a microcefalia dos bebês foi causada pelo zika vírus, ainda não há prazos para as confirmações. “Só poderemos confirmar quando surgirem exames laboratoriais para isso. Hoje, isso não existe no Brasil e no mundo, mas os testes estão sendo desenvolvidos. Há a expectativa que já no início do ano essa tecnologia esteja disponível e possamos fazer as análises”, disse.

 No país, segundo informações do último boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde, 1.248 casos suspeitos de microcefalia foram identificados em 311 municípios de 14 unidades da federação neste ano. Conforme o ministério, “ainda não é possível ter certeza sobre a causa para o aumento de microcefalia”.

No entanto, o órgão informou que a principal suspeita para o aumento no número de casos da microcefalia seriam as contaminações pelo zika vírus, identificadas em gestantes na Paraíba, cujos fetos foram diagnosticados com a enfermidade.

Ainda assim, conforme divulgado pelo Ministério da Saúde, “todas as hipóteses estão sendo minuciosamente analisadas e qualquer conclusão neste momento é precipitada. As análises não foram finalizadas e, portanto, continuam em andamento”.

Cuidados e soluções
Apesar de cuidados como uso de roupas de mangas compridas, repelentes e telas em janelas, o combate ao mosquito é apontado como a solução mais eficaz para evitar as doenças transmitidas pelo Aedes aegypti, segundo o epidemiologista e pesquisador do I Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) da Universidade Federal de Goiás (UFG), João Bosco Siqueira.

“Tem visto ao longo do tempo que existe esforço para conter o vetor, mas o sucesso é limitado. Continua tendo casos crescentes. A questão do vetor é ainda mais importante, pois o mosquito transmite não só dengue, mas chikungunya, febre amarela e pode transmitir o zika. A meta é o trabalho conjunto dos governos locais e federal com a população. Medidas de proteção individual são limitadas e as telas nas janelas não são a solução, mais contribuem, pois diminuem a quantidade do vetor em contato com as pessoas”, ressaltou.

Segundo ele, “não existe uma bala mágica” e a vacina contra a dengue, que segue em fase de testes, não vai resolver todos os problemas. “Certamente, a vacina é muito bem-vinda para ajudar no controle da doença, mas o controle do mosquito, mesmo com a vacina disponível, tem que ser mantido. Eles vão ser complementares. Até porque não vai ter como produzir as doses, inicialmente, em grande escala”, disse.

Sobre a suspeita de ligação do zika vírus com os casos de microcefalia, João Bosco explicou que ainda não existem muitas informações e que a população e a classe médica devem ficar em alerta. “Esse cenário da microcefalia é algo sem precedentes. Nunca vimos algo dessa magnitude transmitido por um vetor e pelo qual se tem dificuldade em combater. Acho que antes as pessoas encaravam a dengue sem tanta atenção e com esse surto os olhares devem mudar. Devemos ficar preocupados”, alertou.

Aedes aegypti, que transmite dengue e chikungunya, também pode transmitir o zika vírus (Foto: CDC-GATHANY/PHANIE/AFP)

Aedes aegypti transmite dengue, chikungunya, febre amarela e zika vírus 

Fonte: G1

Gostou? Compartilhe

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA